Até 2002, não tínhamos o hábito de usar as regiões para falar de redutos eleitorais. Nas disputas para presidente, redutos eram os estados. Em 1989, Leonel Brizola obteve 61% dos votos totais no Rio Grande do Sul, e 50% no Rio de Janeiro; os dois estados eram redutos de Brizola. O mesmo aconteceu com Ciro Gomes no Ceará em 1998 (27% dos votos), ou Garotinho no Rio de Janeiro em 2002 (40% dos votos).

A partir das eleições de 2006, uma região do país passou a ser usada para designar o reduto de um partido: o Nordeste e o PT. Foram seis turnos de vitórias avassaladoras. Em 2006, Lula obteve 60% dos votos dos eleitores nordestinos que compareceram para votar no primeiro turno - o maior percentual alcançado na história das eleições presidenciais por um candidato em uma determinada região.

O gráfico abaixo mostra a votação do PT e PSDB na região Nordeste no primeiro turno das eleições presidenciais. Ainda que Dilma Rousseff em tenha obtido em 2010 e 2014 um percentual levemente menor do que Lula, a ideia de reduto se manteve. O Nordeste passou a ser o território petista.

No primeiro turno das eleições de 2014, 27% dos eleitores que compareceram para votar moravam no Nordeste. Desse modo, um candidato que recebe 50% dos votos na região já garante cerca de 13,5% em âmbito nacional. Numa disputa altamente competitiva, esse patamar já coloca um candidato na disputa para ir para o segundo turno. E é, sobretudo, com o seu reduto nordestino que o PT conta para chegar ao segundo turno em 2018.

Creio que ninguém tem dúvida que Fernando Haddad crescerá no Nordeste à medida que a campanha avance e ele se torne conhecido dos eleitores da região. Existe uma versão corrente que sugere que essa transferência será simples e automática. A imagem que me vem a mente é daquelas mangueiras de borracha usadas para extrair gasolina de um tanque e passar para outro. Ao longo dessas semanas finais de campanha, o pote vazio de Haddad vai enchendo com os votos transferidos pelo prestígio do ex-presidente.

Obviamente, a “visão hidráulica” da transferência de votos de Lula para seu candidato, pode vir a acontecer, e essa é a aposta de diversos analistas. Mas gostaria de chamar a atenção para alguns fatores que podem afetar a intensidade da transferência de votos no principal reduto petista.

1. No lugar da campanha plebiscitária, entra o que?

O reduto petista no Nordeste foi consolidado quando o partido estava à frente da presidência. As eleições de 2006, 2010 e 2014 tiveram uma caráter plebiscitário (a favor ou contra as política públicas do governo petista), que não estará presente em 2018, já que o governo Temer não tem defensores.

A poucos dias do começo do horário eleitoral os temas centrais da campanha ainda não estão postos. Será a divisão entre os que apoiam e rejeitam Bolsonaro? Ou a crise econômica e as melhores propostas para superá-la? Ou até quem sabe uma mera ênfase nos atributos dos candidatos, sem grandes discussões sobre o país.

Para o PT interessa recolocar o tema plebiscitário em outras bases. Agora, em torno de uma nova agenda: os que defendem a “volta do PT” versus os que são “contra a volta do PT”. A polarização pode ter um papel fundamental para impulsionar a transferência de votos no Nordeste.

2. A barreira Ciro Gomes

Nas três últimas eleições, o PT praticamente não teve adversários no Nordeste. A votação do PSDB, com exceção das duas vitórias de Fernando Henrique, têm sido tradicionalmente reduzida, e vem caindo na região (ver a figura acima).

A dúvida é até que ponto a candidatura de Ciro Gomes, político que fez sua carreira no Ceará, poderia ser uma barreira para o crescimento do PT. Nas duas eleições em que concorreu, Ciro teve seu melhor desempenho no Nordeste - 12% do votos dos que compareceram em 1998, e 15% em 2012 -, embora em patamares inferiores à votação do PT e do PSDB.

Ainda é cedo para falar sobre o desempenho de Marina e Bolsonaro no Nordeste, já que a expectativa é que o crescimento do candidato petista “avance” sobre os votos que hoje esses candidatos obtêm na região.

3. Votos nulos e em branco

No primeiro turno de 2014 havia uma expectativa de que os votos inválidos (soma de nulos e em branco) poderia crescer. Como tradicionalmente os votos inválidos são mais altos na cidades mais pobres e com menor escolaridade, esse crescimento poderia afetar a candidatura de Dilma Rousseff. Mas como mostra a Figura 2, isso não aconteceu. O percentual de votos nulos e em branco foi praticamente o mesmo das eleições anteriores.

A minha expectativa é que os votos nulos por protesto cresçam nas eleições de 2018, repetindo um padrão já observado nas eleições municipais de 2016. Mas o que deve preocupar os dirigentes petistas é um outo tipo de voto inválido, fruto da desinformação e do erro.

Com uma campanha curta, sem dispor do mesmo tempo de televisão das eleições anteriores, sem a presença física de Lula nas atividades de rua e com muito menor dinheiro para gastar na presidencial, o desafio do PT é fazer o nome do candidato Haddad (ou melhor, o número 13) chegar aos eleitores de baixa escolaridade, baixa renda e moradores das pequenas cidades do Nordeste. Sem uma informação precisa sobre a existência de um “candidato do Lula”, o voto nulo e em branco tenderá a crescer na região.