Marina Silva é um discreto fenômeno na história das eleições presidenciais brasileiras. No pleito de 2010 ela recebeu 17.6% dos votos dos eleitores que compareceram para votar. Na eleição de 2014, sua votação subiu para 20.6%. Com esses percentuais, Marina obteve as duas melhores votações de um terceiro candidato no atual ciclo democrático. Vale a pena lembrar que em 1989, Lula passou para o segundo turno com apenas 16% dos votos.

As eleições de 2010

Em 2010, Marina Silva concorreu pelo PV, partido sem estrutura nacional e que contava com apenas 15 representantes na Câmara dos Deputados. Marina teve apenas 83 segundos por programa no horário eleitoral gratuito; cerca de 10% do tempo de Dilma Rousseff (PT), candidata que dispunha de mais tempo. Com recursos limitados e concorrendo por uma pequena legenda, a expectativa é que Marina terminaria como os outros candidatos que disputaram em condições semelhantes em eleições anteriores e receberam baixíssimas votações.

Ao longo da campanha, Marina não chegaria a ameaçar os dois candidatos favoritos, Dilma Rouseff (PT) e José Serra (PSDB), mas seu desempenho foi surpreendente. Marina chegou em primeiro lugar no Distrito Federal com 39% dos votos, e em segundo lugar, à frente do candidato do PSDB, no Rio de Janeiro (28%), no Amapá (28%) e no Amazonas (24%).

O gráfico abaixo abaixo apresenta o percentual de votos obtidos por Marina Silva por unidade da federação em 2010:

Um ponto que chamou a atenção na votação da candidata do PV foi o desempenho nas capitas e em algumas grandes cidades brasileiras. Entre as 20 cidades com maior população, Marina foi a mais votada em Belo Horizonte (36%), e chegou em segundo no Rio de Janeiro (28%), Salvador (27%), Fortaleza (29%), Manaus (34%), Recife (34%), São Gonçalo (30%), São Luis (27%), Duque de Caxias (25%) e Teresina (21%).

O gráfico abaixo mostra a associação entre o índice de desenvolvimento social (IDH) da cidade e o percentual de votos conquistados por Marina. Sua votação é positivamente associada ao nível de desenvolvimento do município (r de Pearson = 0.47); quanto maior o IDH, maior tende ser a sua votação. É interessante observar que o maior percentual de votos marina d eestá no canto superior direito, nas áreas de maior IDH.

Em 2010, o sucesso de Marina deveu-se, sobretudo, ao seu desempenho nas áreas mais prósperas do país (cidades e bairros com maior renda e escolaridade). As pesquisas de opinião mostraram padrões semelhantes. Em uma pesquisa anterior, mostrei que a probabilidade de votar em Marina aumentava à medida que a escolaridade dos eleitores também aumentava. 1

As eleições de 2014

Embalada pelo seu sucesso em 2010, Marina abandonou o PV em 2011 e passou os dois anos seguintes dedicada a organizar um novo partido, a Rede de Sustentabilidade (Rede). A Rede não conseguiu o registro a tempo de concorrer nas eleições de 2014. Por isso, Marina teve que se filiar a um novo partido. No lugar de se transferir para uma pequena legenda - pela qual poderia ser candidata novamente à Presidência - ela preferiu filiar-se ao PSB, partido que já havia lançado a candidatura de Eduardo Campos.

Já no dia de filiação ao PSB, Marina seria lançada como candidata a vice-presidente. Após a morte de Campos, em 13 de agosto, a direção do PSB confirmou seu nome como candidata do partido à Presidência.

Agora, concorrendo por um partido mais estrurado, Marina conseguiu mais recursos para a sua campanha. Comparativamente à 2010, ela teria apenas 40 segundos a mais por programa no horário eleitoral gratuito. Mas a principal diferença foi o fato de ela poder contar com uma rede de lideranças municipais e estaduais do PSB, o que não tinha acontecido quatro anos antes, por conta da fragilidade do PV.

Marina chegaria a liderar as pesquisas de opinião e somente a poucos dias da eleição foi ultrapassada por Aecio Neves (PSDB). O rápido crescimento do candidato tucano, sobretudo em São Paulo, onde Marina chegou a liderar a dipusta, tiraria a candidata do PSB do segundo turno.

O percentual de votos obtidos por Marina em cada estado em 2014 é apresentado no gráfico abaixo. A candidata do PSB foi a mais votada em dois estados - Pernambuco (46%) e Acre (41%) - e chegou em segundo lugar no Rio de Janeiro (30%), no Amapá (21%) e no Distrito Federal (36%).

O resultado de Pernambuco foi o mais impressionante, já que Marina havia recebido apenas 18% dos votos no estado em 2010. O sucesso deveu-se, sobretudo, à força do diretório estadual do PSB, e ao apoio que sua candidatura recebeu da família do ex-candidato Eduardo Campos. Em Pernambuco, Marina conquistou 10% dos seus votos (no estado residem cerca de 5% dos eleitores do país).

Marina manteve o excelente desempenho nas grandes cidades e capitais. Nas 20 maiores cidades, ela foi a mais votada em Recife (62%), no Rio de Janeiro (30%), em Maceió (33%) e Guarulhos (33%), e chegou em segundo lugar em outras, entre elas: Goiânia (32%), Salvador (24%) e Manaus (29%).

O gráfico abaixo mostra a associação entre o IDH e e o percentual de votos de Marina em 2014. A correlação (r de pearson = 0.12) é bem menor intensa do que a de 2010. Uma das razões é que em 2014 Marina obteve uma excelente votação em municípios com baixo IDH. No gráfico, as cidades de Pernambuco estão assinaladas em cor laranja. Praticamente todas as cidades em que Marina obteve mais de 40% dos votos são do estado, boa parte delas estão concentradas na faixa de menor IDH.

Na realidade, as votações de Marina em 2010 e 2014 têm um padrão muito semelhante. Ela tende a ser mais alta nas cidades com maior população e de maior nível de desenvolvimento social. O grande diferencial de 2014 foi Pernambuco. Marina não só venceu no estado, como teve votação expressiva em muitas cidades.

  1. Ver:https://goo.gl/ot4W7V .