Escrever projetos de pesquisa é uma atividade recorrente na vida de um profissional de ciências sociais.1 Os principais programas de Ciência Política, por exemplo, exigem que em algum momento da sua formação o aluno apresente um projeto de pesquisa para se qualificar ao título de doutor. No Brasil - e provavelmente em todo o mundo -, os pesquisadores dedicam um bom tempo na redação de projetos para serem submetidos às agências governamentais e organizações privadas.

Algumas instituições definem a estrutura do projeto nos editais de seus concursos. Esta não é, porém, a regra comum. Quase sempre, cabe aos pesquisadores e aos alunos definirem a estrutura do projeto que será submetido. Tenho frequentemente participado de bancas, e lido muitos projetos de pesquisa, e percebo que eles apresentam alguns problemas recorrentes. Boa parte desses poderia ser evitado se o pesquisador tomasse algumas precauções.

Acredito que dois fatores têm contribuído para que os projetos fiquem aquém do desejado pelos avaliadores. O primeiro, já mencionado, é que as organizações de pesquisa e os programas de pós-graduação não têm o hábito de apresentar os parâmetros do que esperam como um bom projeto. O segundo é que os alunos quase nunca são treinados durante a sua formação para redigirem projetos de pesquisa. Percebo, em certos ambientes, uma naturalização da redação do projeto. A versão é mais ou menos a seguinte: basta que o aluno encontre o seu tema (o problema de pesquisa) que, a seguir, o projeto aparece. Ou seja, o projeto é gerado por fiat.

Infelizmente, boas ideias de pesquisa acabam sendo prejudicadas por projetos frágeis. O propósito deste texto é apresentar um roteiro para auxiliar os alunos de pós-graduação a elaborar um projeto de pesquisa. Escrito prioritariamente para ser lido por alunos que estão elaborando seus projetos de doutorado, creio que o texto possa ser adaptado pelos pesquisadores que pretendem submeter projetos de pesquisa às agências de fomento.

O texto está divido em duas partes. A primeira trata das diferentes seções que compõe um projeto: resumo, objetivo, justificativa, revisão da literatura, hipóteses, métodos e esboço dos capítulos. A segunda parte explora três tópicos de interesse geral: o tamanho, o forma de apresentação e a relação com o orientador.

As seções do projeto

O resumo

Vale a pena dedicar tempo para fazer o melhor resumo possível. Ele é um atalho fundamental para os avaliadores do projeto. Um resumo bem feito prende a atenção do leitor e o estimula a ir adiante na leitura.

Não caia na tentação, tão frequente, de “cortar e colar” trechos do projeto no resumo. Rediga um texto curto (entre 100 e 300 palavras) e original, enfatizando os três aspectos fundamentais da pesquisa: o que você pretende fazer; por que é importante fazer; e como será feito.

Os objetivos

O principal tópico que um leitor de um projeto quer saber é: qual é o propósito da pesquisa? Não deixe que ele percorra várias páginas (em geral de revisão bibliográfica) para encontrar, escondido, no meio de um parágrafo, a frase esperada: “o objetivo da pesquisa é…”. Seja explícito e dedique pelo menos um parágrafo ao que pretende realizar.

Muitos projetos insistem em diferenciar os objetivos gerais e os objetivos específicos da pesquisa. A distinção entre os dois é quase sempre imperceptível e pouco esclarecedora. Minha sugestão é se concentrar na apresentação dos propósitos gerais, deixando de lado a enumeração dos “sub-objetivos” da pesquisa.

Alguns preferem abrir uma seção unicamente para tratar dos objetivos da pesquisa. Outros diluem os objetivos na discussão mais geral. Escolha o que achar mais conveniente. O mais importante é deixar claro para o leitor, o mais rápido possível, o que pretende fazer com a sua pesquisa.

A justificativa

A justificativa é uma das seções mais importantes de um projeto. Nela o pesquisador deve salientar qual é a relevância da pesquisa. Ou seja, as razões intelectuais e sociais pelas quais o projeto deve ser aprovado e, na maior parte da vezes, financiado. Nas ciências sociais, a discussão sobre o que é uma pesquisa relevante tem, muitas vezes, levado a um debate estéril. Minha sugestão é o que aluno aponte a relevância da pesquisa em uma das duas dimensões (social e intelectual) salientados por King, Keohane, & Verba (1994, p. 15):

Idealmente, todos os projetos de pesquisa em ciências sociais devem satisfazer a dois critérios. Primeiro, um projeto de pesquisa deve apresentar uma questão que é ‘importante’ no mundo real. O tópico deve ter consequências para a vida política, econômica e social, para o entendimento de algo que significativamente afete a vida de muitas pessoas, ou para predição de eventos que podem ser negativos ou benéficos. Segundo, um projeto de pesquisa deve fazer uma contribuição para uma literatura acadêmica identificável, que aumente nossa habilidade coletiva para construir explicações científicas sobre algum aspecto do mundo.

Sempre que possível apresente a relevância social de sua pesquisa. Para alguns temas, esta tarefa é mais fácil. Um aluno que estuda programas de combate a pobreza, avalia determinados projetos sociais ou discute modelos de participação política não terá muitas dificuldade em apontá-la. Para outros temas de pesquisa, a tarefa é mais difícil.

Um projeto não pode deixar de assinalar, porém, a relevância intelectual da pesquisa. Procure deixar claro para o leitor qual é a contribuição da sua pesquisa para ampliar o conhecimento de uma determinada área. Por isso, sugiro que a justificativa deve estar associada ao levantamento do “estado da arte” da bibliografia sobre o tema a ser estudado.

A revisão da literatura

Realizar um cuidadoso levantamento bibliográfico é condição necessária para se realizar uma boa pesquisa. Para fazer um nova contribuição ao estoque de conhecimento de um determinada área, é fundamental que você esteja familiarizado com a literatura pertinente. O conhecimento do “estado da arte” da pesquisa já realizada sobre o seu tema reduzirá as chances de que você perca seu tempo repetindo esforços já feitos ou ofereça contribuições irrelevantes. Alguns temas pouco tratados exigirão pesquisa bibliográfica ampla. Outros assuntos mais canônicos têm sido frequentemente resenhados em revistas especializadas e livros .2

Embora a revisão da literatura seja decisiva, sou da opinião de que ela não deve ser apresentada exaustivamente no projeto. Faça uma pesquisa bibliográfica detalhada e tente buscar as referências mais recentes sobre o seu tema do seu estudo. Organize essas referências do jeito que preferir: notas, fichamentos, resenhas, listas bibliográficas. Compartilhe esse material l com seu orientador e seus colegas. Mas não se esqueça que o projeto de pesquisa não é lugar para demonstrar erudição e controle de uma determinada sub-área de conhecimento.

No projeto trate apenas da literatura que tem associação direta com o problema da pesquisa. Por exemplo, em um projeto que pretende investigar a estrutura interna de um partido brasileiro, você não precisa fazer uma revisão de todos os textos sobre organização partidária já escritos; algo como: “de Robert Michels aos nossos dias”. Neste caso, talvez seja mais relevante localizar textos mais recentes que discutam a organização partidária em novas democracias, ou uma tipologia que inclua novos formas de partido em regimes políticos de baixa institucionalização partidária.

Uma sugestão é associar a revisão da literatura à justificativa do projeto. A estrutura de argumentação pode seguir o seguinte roteiro: o meu é tema é Z; identifiquei na literatura uma ausência de estudos ou um tratamento insuficiente sobre Z; minha pesquisa pretende cobrir esta falha (ou ausência) da maneira X.

Para este esforço de localizar o seu problema de pesquisa no interior de uma tradição intelectual não há regras de quantos trabalhos mobilizar. Para alguns temas, provavelmente você precisará utilizar um grande número de autores. Para outros, basta a referência a umas poucas obras. Na dúvida, seja parcimonioso e não perca de vista a conexão de seu problema de pesquisa com a literatura.

As hipóteses

Nos estudos quantitativos é muito comum que os autores apresentem seus argumentos em forma de hipótese. Nestes textos, lemos frases, tais como: “minha hipótese é que existe uma associação negativa entre votos nulos e analfabetismo”; “minha hipótese é que quanto mais urbanizada é a região, mais votos os partidos de esquerda recebem”. Este tipo de pesquisa se propõe a “testar” um conjunto de hipóteses. O intuito é verificar em que medida padrões esperados - pelo senso comum ou por uma determinada teoria - de associação entre variáveis serão encontrados pela pesquisa. O padrão confirmatório das ciências sociais é conhecido. Em geral, no relatório final, a pesquisa acaba confirmando a maioria das hipóteses apresentadas. Mas no momento de redação do projeto, é claro que as hipóteses têm que ser apresentadas como perguntas a serem respondidas.

Se você está fazendo uma pesquisa quantitativa, a apresentação de hipóteses a respeito da relação entre as variáveis pode ajudar a organizar a pesquisa. Mas seja parcimonioso, e evite numerar (Hipótese 1: ..; Hipótese 2: …) as hipóteses de pesquisa. Embora isso dê um aparente caráter de “cientificidade” ao texto, na prática, dificilmente ajuda a chamar a atenção para os aspectos fundamentais que norteiam a relação entre as variáveis (King, 2006).

Vejo alunos de todos os tipos em busca de uma hipótese que possa guiar suas pesquisas. Nesta busca obsessiva pela hipótese, já escutei coisas do tipo: “minha hipótese é que o conceito de dominação carismática de Weber deriva de …”; ou, “minha hipótese é que o pensamento de Gilberto Freire foi influenciado por…”. Fora do contexto das pesquisas orientadas para variáveis (ou seja, pesquisas quantitativas), a formulação de uma hipótese quase nunca passa de uma apresentação de proposições triviais sobre um determinado assunto.

Se você tem um banco de dados e acredita que a apresentação de uma hipótese o ajudará no desenvolvimento da pesquisa, tudo bem. De outro modo, melhor não utilizar este formato para apresentar seus argumentos.

Os métodos de pesquisa

Definido o que se quer fazer, e por que é importante fazer, é fundamental para o leitor saber como a pesquisa será desenvolvida. Ou seja, o pesquisador deve apresentar os métodos e fontes que ele selecionou para utilizar na pesquisa. Essa é uma das seções mais importantes de um projeto, mas infelizmente é a que tradicionalmente recebe menos atenção.

É comum ler projetos em que a seção de métodos (as vezes chamada de metodologia), é simplesmente uma lista de técnicas de coletas de dados. Em uma pesquisa sobre um determinado sindicato, por exemplo, leremos algo do tipo: “a pesquisa utilizará entrevistas com lideranças políticas, visita à sede do sindicato e análise das atas das reuniões do sindicato”. Seja muito mais cuidadoso e dedique algumas páginas (pelo menos duas ou três) para discutir os métodos que serão empregados em sua pesquisa.

Um projeto de pesquisa quantitativa exige a montagem de um banco de dados. Hoje existem milhares de bancos de dados organizados e disponíveis para consulta on-line. Caso você escolha um destes para trabalhar, apresente as razões da escolha. É importante apresentar uma lista das variáveis que serão utilizadas na pesquisa. Ainda que inevitáveis mudanças sejam feitas ao longo da pesquisa, essa primeira listagem oferece elementos mínimos para quem avaliará o seu projeto.

Se a pesquisa pretende organizar um novo banco de dados, apresente a fonte de onde as informações serão coletadas, e uma lista das variáveis que farão parte do banco. Caso a realização de uma pesquisa de opinião seja parte decisiva da pesquisa, sugiro que o questionário (ainda que em sua versão preliminar) seja apresentado em anexo ao porjeto. Com isso, você pode deixar mais claro o que pretende saber e ainda receber sugestões de seus avaliadores para aperfeiçoar o questionário.

Evite apresentar análise de dados no projeto. Tabelas, gráficos e testes estatísticos só devem fazer parte do projeto em casos extremos, quando seus resultados estiverem associados substantivamente ao problema de pesquisa. Mas em qualquer circunstância dedique pelo menos um parágrafo para apresentar as possíveis técnicas estatísticas que serão utilizadas para análise do banco de dados: estatística descritiva; estatística inferencial; séries temporais; análise multivariada (regressão linear; logística), etc.

Os cientistas políticos tendem a naturalizar o uso de métodos de coleta de dados não-quantitativos. Existe uma extensa literatura sobre o uso de etnografia, entrevistas, análise de documentos e fontes históricas em ciência política. Coletar evidências e dar um tratamento adequado ao material qualitativo exige um bom treinamento. Leia algumas obras de referência sobre estas técnicas e deixe claro que tem um conhecimento satisfatório daquelas que pretende utilizar na pesquisa.

Se sua pesquisa pretende fazer um estudo de caso, ou comparar um número reduzido de casos, minha sugestão é apresentar uma boa razão intelectual para fazê-lo. Seja cuidados ao apontar a justificativa para a seleção de seus casos. Lembre-se que a escolha de um caso, ou de um número reduzido de casos, trará inevitáveis perguntas: o que você pode aprender sobre o funcionamento do presidencialismo, comparando Brasil e Argentina? Por que somente estes dois países, e por que não incluir os vizinhos Uruguai e Chile? Por que não toda a América Latina? Por que não todos os países presidencialistas?

Hoje existe uma extensa literatura sobre as virtudes e os limites dos estudos de caso e sobre como selecioná-los de maneira cuidadosa (George & Bennett, 2005; Gerring, 2006; Gerring, 2008). Leia estes textos e tente conectar os problemas metodológicos apresentados com a escolha do seu caso (ou casos).

O cronograma e o esboço dos capítulos

Ao final do projeto apresente um cronograma das atividades que serão desenvolvidas nos meses de pesquisa. Uma sugestão é colocar todas as informações em um quadro, preferencialmente apresentado em uma única página. (ver o exemplo abaixo). Além de facilitar a leitura, o cronograma apresentado desta maneira oferece a possibilidade de obter uma visão geral das atividades que serão desenvolvidas.

Para os alunos que estão preparando o projeto de pesquisa para a tese de doutorado é fundamental fazer um esboço da estrutura da tese, com uma breve descrição (de poucas linhas) do que será feito em cada capítulo. Este pequeno exercício ajuda muito os alunos a dimensionar a pesquisa futura. Lembro de um aluno que, após organizar o seu quadro-cronograma, se deu conta de que seria impossível escrever os 12 capítulos planejados nos dois anos e meio que restavam para acabar seu doutorado.

Exemplo de quadro com o cronograma da pesquisa:

Meses Atividade
Janeiro - Abril Pesquisa bibliográfica // Organização do banco de dados
Maio - Setembro Redação da primeira versão do capítulo 1 // Análise de dados e primeiros testes estatísticos
Outubro-Dezembro Redação do Capítulo 2 // Revisão da primeira versão do capítulo 1

Os produtos

Se você pretende submeter o seu projeto de pesquisa a uma organização de fomento à pesquisa, procure dizer, de maneira mais detalhada possível, quais serão os veículos para divulgação dos resultados.

Com a consolidação de dois sites que disponibilizam periódicos - Scielo e Portal Capes - é possível ter acesso às melhores revistas científicas. Hoje, elas se tornaram a forma mais popular de divulgação das pesquisas feitas em todo o planeta.

Por isso, além dos tradicionais seminários e workshops, onde os resultados da pesquisa serão compartilhados com os colegas, vale a pena se empenhar para redigir pelo menos um artigo, com os principais achados da pesquisa, para ser publicado em uma revista acadêmica.

A bibliografia

Houve um tempo em que um estudante passava dias para organizar a bibliografia do seu trabalho. Hoje este esforço não é mais necessário, pois existem diversos programas que podem organizar suas anotações, anexar textos e - o melhor de tudo

  • gerar bibliografias automaticamente.

Se você ainda não tem um programa de referência bibliográfica é hora de providenciar. Existem muitos programas para este fim. Entre eles, destaco o Zotero e o Mendeley. Ambos são gratuitos, ficam sincronizados em mais de um dispositivo e são amplamente utilizados pela comunidade acadêmica de todo o mundo. Instale um dos dois programas e gaste um dia para aprender como utilizá-lo. Com isso, você se protege de ter que ouvir no dia da defesa que: “diversas referências em seu projeto não estão na bibliografia”, ou “os nomes e datas não conferem”.

Algumas instituições exigem que o projeto siga alguma norma bibliográfica específica (ABNT, Chicago, Turabian, APA). Neste caso, não tem escapatória a não ser se adequar às normas. Mas se você tiver liberdade de escolher, sugiro adotar algum sistema “autor-data”. São aqueles que depois do nome coloca-se o ano da obra e, se for o caso, a página da citação: (Dahl, 1956: 27). Siga o mesmo sistema nas notas de rodapé. Este é o sistema mais simples e evita os insuportáveis idem, ibedem, op.cit, que confundem qualquer um. Outra vantagem é que ele evita que o texto fique carregado de notas que reproduzem integralmente (ou parcialmente) a referência bibliográfica.

Gosto, particularmente, do modelo da American Psychological Association (APA), que é utilizada neste texto. A propósito, você pode melhorar bastante a apresentação de seu projeto se consultar o Manual de Estilo da APA (APA, 2006).

Lembre-se: da bibliografia devem constar apenas os textos citados no projeto. Textos que você pretende ler, ou foram lidos, mas não foram citados, não devem fazer parte da bibliografia.

Tópicos gerais

O tamanho do projeto

Muitas instituições ainda valorizam projetos longos (entre 12 mil e 20 mil palavras) quase sempre recheados por uma extensa revisão bibliográfica. No Brasil temos o hábito de estabelecer limites dos trabalhos pelo número total de páginas. O problema é que as pessoas utilizam todos os tipos de recurso (tipo e tamanho da fonte, formatação, espaço) para escrever mais ou menos do que o estabelecido. Uma página padrão (Arial, Fonte 12, espaço 1 e 1/2) tem cerca de 400 palavras.

Eu tenho preferência por projetos mais curtos (cerca de 8 mil palavras). Para se ter uma ideia, este é mais ou menos o número máximo de palavras definidas por importantes revistas internacionais de Ciência Política para aceitar um artigo para publicação.3

Uma série de razões podem ser apresentadas para justificar a preferência por projetos sintéticos. A primeira delas está associada à própria natureza de um projeto de pesquisa. As imagens são um pouco desgastadas, mas vá lá. Um projeto é uma espécie de mapa de navegação, um roteiro de viagem. Ele deve apresentar uma visão clara do que é a pesquisa, as razões de sua importância, e as linhas gerais de como ela será implementada. Raramente alguém necessita de mais de 8 mil palavras (em torno de 20 páginas) para realizar essas tarefas.

Uma segunda razão é de caráter pragmático. O pesquisador não deve se esquecer que, em muitas situações, o seu projeto concorre com outros por recursos limitados. Imagine, por exemplo, uma banca de seleção para um concurso de doutorado com 50 candidatos. Os avaliadores devem ler, além do dossiê de cada candidato, os respectivos projetos. Nessas circunstâncias, projetos mais concisos e objetivos têm maior probabilidade de despertar o interesse e atenção dos avaliadores.

Uma terceira razão diz respeito ao precioso tempo das pessoas envolvidas na avaliação dos projetos. Todos hoje andam soterrados por leituras de teses por fazer, projetos para escrever, artigos para dar parecer, e-mails para responder. A leitura de um projeto de 20 mil palavras (cerca de 50 páginas) consome, pelo menos, meio dia de trabalho de um avaliador.

A apresentação

Utilize a apresentação padrão dos textos. Escolha o formato da fonte; espaço 1 e 1/2 e fonte 12. Alguns autores gostam de subdividir o texto em seções numeradas (1,1.1, 2, 2.2, 2.3…). Particularmente, eu prefiro utilizar fontes maiores para definir as seções e menores para demarcar as subseções. Escolha a que você preferir.

Procure manter uma certa sobriedade na apresentação. Evite firulas, tais como capa plástica, letras muito exóticas ou ilustrações triviais.

Não se esqueça de fazer uma revisão de estilo. Se você tem dificuldades de redigir com clareza, não confie exclusivamente no corretor ortográfico do processador de texto. Contrate alguém para fazer uma revisão profissional. É muito desagradável ter que ouvir do avaliador durante a defesa do projeto, ou do parecerista que leu o projeto, que o projeto está mal redigido e que contém erros de português.

Lembre-se de que um projeto mal redigido e mal apresentado tem alta probabilidade de irritar o os leitores. Inevitavelmente, eles deixarão de fazer o que se espera deles: ler e criticar os aspectos substantivos do projeto de pesquisa.

O Orientador

Uma dúvida de todo aluno que está preparando seu projeto de doutorado é quando enviar as versões escritas para o orientador. Muitos orientadores estabelecem regras específicas para receber e comentar as versões escritas pelos alunos. Recentemente, participei de uma banca em que a orientadora confessou que leu 14 versões do projeto do orientando!

O e-mail tem facilitado a comunicação entre alunos e orientadores. O lado negativo é que muitos alunos, sobretudo no começo da fase de redação, submetem à apreciação do orientador cada pequena mudança que fazem no projeto. Ainda que ele tivesse tempo de sobra para ler cada versão, está não é um boa opção. A razão é simples. A cada releitura de um texto semelhante, a tendência é que a atenção do leitor seja decrescente. Tendemos a não ser tão atentos em partes que já vimos muitas vezes. Por isso, deixamos passar erros banais quando trabalhamos muito tempo no mesmo texto.

Minha sugestão é que, antes de mais nada, você discuta a estrutura geral do projeto com o seu orientador. Depois disso, gaste semanas (ou meses) preparando uma a primeira versão completa para apreciação. Versão completa significa com bibliografia - e notas e anexos, se for o caso. Isso permitirá que o seu orientador tenha uma visão conjunta do seu trabalho e possa fazer comentários mais pertinentes para aperfeiçoá-lo.

Depois de receber o texto comentado do orientador (preferencialmente acompanhado de uma conversa) você terá elementos para redigir uma última (ou penúltima) versão do projeto. Não creio que um aluno necessite de mais de duas leituras atentas do seu trabalho. Isto, é claro, se ao começar a redigir o projeto ele já tiver respondido as três perguntas básicas que devem orientá-lo ao longo de toda a pesquisa: O que vou fazer? Por que vou fazer? Como vou fazer?

Referências Bibliográficas

APA. (2006). Manual de Estilo da APA: Versão Concisa do Guia Oficial de Estilo da American Psychological Associaton. Porto Alegre: Artmed.

George, A., L., & Bennett, A. (2005). Case Studies and Theory Development in the Social Sciences. Cambridge: The MIT Press.

Gerring, J. (2006). Case Study Research: Principles and Practices. Cambridge: Cambridge University Press.

Gerring, J. (2008). Case Selection for Case-study Analysis: Qualitative and Quantitative Techniques. In J. Box-Steffensmeier, M., H. E. Brady, & D. Collier(pp. 645-684). Oxford: Oxford University Press.

King, G., Keohane, R. O., & Verba, S. (1994). Designing Social Inquiry. Princeton: Princeton University Press.

King, G. (2006). Publication, Publication. PS: Political Science and Politics, XXXIX(1), 119-125.

  1. Este texto é uma versão, com pequenas alterações, do artigo “Breve roteiro para redação de projetos de pesquisa”, publicado na Revista Estudos Políticos, n.6, (p.345-353), 2013. 

  2. Ver, por exemplo: Boletim de Informação Bibliográfica (BIB), Annual Review of Political Science, e Annual Review of Sociology

  3. O sistema universitário e as revistas americanas e inglesas costumam estabelecer número de palavras como norma. Por exemplo, o European Journal of Political Research aceita manuscritos de no máximo 8 mil palavras; a Comparative Polital Sudies, de no máximo 10 mil palavras; o British Journal of Political Research sugere que o artigo tenha entre 5.000 e 12.000 mil palavras.